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Quem somos?

O segundo momento: 1995-2005

A maioria do Diretório Nacional eleito no Encontro de Guarapari (ES) elege Cândido Vaccarezza, ex-militante da AE, como secretário-geral do Partido.

Em protesto contra este desrespeito à proporcionalidade, os 49% minoritários retiram-se durante várias semanas da composição da executiva. Paradoxalmente, este gesto de protesto deixa o campo livre para que a nova maioria moderada se instale livremente e estabeleça seu controle sobre a direção partidária, abrindo um período de hegemonia que vai se estender até 2005.

Portanto, a partir de 1995 se instalou no partido uma maioria em torno de uma política que podemos sintetizar assim: “alianças da esquerda com o centro, em torno de um programa alternativo ao neoliberalismo, visando conquistar o governo federal”.

De 1995 a 2002, esta maioria foi hegemonizando o partido, às vezes por meios legítimos, outras vezes adotando métodos condenáveis (como é o caso da intervenção no Rio de Janeiro, para obrigar o PT a apoiar a candidatura de Garotinho).

Note-se que a intervenção no PT do estado do Rio de Janeiro foi feita a pretexto de garantir o apoio de Brizola à candidatura Lula. Em certa medida, foi a esquerda petista, no Encontro realizado no Hotel Glória, em 1997, quem mais estimulou aquela candidatura Lula, que historicamente foi essencial para manter o fio da meada que nos levaria, em 2002, a vencer a eleição.

O fato isolado mais importante deste processo de hegemonização do Partido por uma nova maioria foi o Segundo Congresso do PT, realizado em Belo Horizonte, quando se adotou a eleição direta para direções partidárias, método que esvazia os encontros e tende a reforçar o peso dos filiados, em detrimento dos militantes. Mesmo assim e como sempre na história do Partido, o setor moderado passou por apuros e teve que se desdobrar para que não fosse aprovada uma resolução simpática à palavra de ordem Fora FHC.

Durante 1995-2002, a Articulação de Esquerda buscou unir a esquerda petista, para resistir e derrotar a maioria moderada.

Além da AE, esta esquerda petista era composta por diversas tendências e indivíduos, com destaque para duas tendências: a Democracia Socialista e a Força Socialista. Grande parte das polêmicas existentes no interior da AE, nestes sete anos, disse respeito exatamente ao que podemos denominar “política de alianças da AE”.

Esta polêmica esteve na base de duas importantes rupturas sofridas pela tendência neste período:

- em 1997, a saída de Arlindo Chinaglia e seu grupo, que não concordaram com a criação do setorial sindical da Articulação de Esquerda. Chinaglia defendia que a AE seguisse participando da Articulação Sindical;

- em 2002, a saída de um grupo de militantes da AE, que criaram uma tendência chamada Pólo Socialista.

Ao mesmo tempo, a Articulação de Esquerda viveu uma luta interna e externa contra os defensores da chamada Consulta Popular, impulsionada a partir de 1996 por militantes petistas descontentes com os rumos do Partido e adeptos de uma estratégia que, em nossa opinião, subestimou o papel da luta eleitoral e institucional num país como o Brasil. Desta estratégia, decorria um afastamento da militância direta no PT, contribuindo, assim, para o enfraquecimento da esquerda petista, ainda que parte dos companheiros e companheiras da Consulta permaneça formalmente filiada, e/ou militem, em períodos eleitorais, a favor de candidaturas petistas.

A eleição de Lula, em 2002, é apresentada pelo setor moderado do partido como a confirmação do acerto de sua estratégia de centro-esquerda. A realidade é muito mais complexa do que isto; mas, do ponto de vista prático, o setor moderado foi mais exitoso em se apropriar, ideológica e estruturalmente, daquela vitória construída coletivamente.

Como resultado, as três principais tendências da esquerda petista viveram então uma dura luta interna, protagonizada por setores que defendiam (com maior ou menor nitidez) uma tática de oposição ao governo Lula e, no limite, uma postura de ruptura com o PT.

Esta luta interna às tendências da esquerda combinava-se com a luta interna no PT, especialmente na bancada na Câmara dos Deputados; bem como com os conflitos no interior de outros setores do PT e do governo. No centro destes conflitos, estava a política hegemônica no governo e apoiada, mesmo que a crescente contragosto, por setores importantes da maioria do partido, de conciliação com o neoliberalismo, propugnada e implementada fundamentalmente pelo então ministro Antonio Palocci.

A Articulação de Esquerda caracterizou o governo Lula e enfrentou o debate acima citado em três momentos: na V Conferência realizada em novembro/dezembro de 2002; na VI Conferência realizada em duas etapas no ano de 2003 (setembro, em Campinas; novembro, em Belo Horizonte); e, finalmente, na VII Conferência da AE, realizada em dezembro de 2004, em São Bernardo do Campo (SP).

Nesta sétima Conferência, um setor rompe com a tendência. Parte sai imediatamente do PT; outra parte sai após o PED de 2005, tendo como destino o PCB, o PSOL ou a militância sem-partido. O motivo da ruptura, como está claro, é a avaliação feita por eles acerca do governo Lula e do PT.

No caso da DS, um setor rompe com o PT já no final de 2003, início de 2004, tendo como catalisador a expulsão de Heloísa Helena. No mesmo período, saem do PT duas tendências: o MES (Movimento de Esquerda Socialista) e a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), logo após a expulsão de Luciana Genro e Babá. No mesmo momento, saem Milton Temer, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, oriundos do antigo PCB. O destino de todos eles será formar um novo partido, o PSOL.

Os que vão para o PSOL coincidem na idéia de que o PT já se esgotara como projeto socialista. Mais ou menos a mesma avaliação feita, em 1990, pela antiga Convergência Socialista, que após sua expulsão do PT cria o PSTU.

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